domingo, 6 de junho de 2010

A cultura em Porto Alegre tem dono


A cidade de Porto Alegre já foi conhecida em todo o mundo por diversas qualidades. Éramos a Capital da participação popular e do Fórum Social Mundial. Éramos! Hoje somos uma cidade com trânsito caótico, ruas escuras, sujas, índices altíssimos de violência, praças e parques tomados pelo mato.  Sim, nos tornamos a Capital do abandono.

Mas uma outra grande qualidade que essa saudosa Porto Alegre tinha era a vida cultural. Éramos a Capital da descentralização da cultura, do Porto Alegre em Cena, de espaços culturais valorizados e pertencentes à comunidade. Isso também mudou.

Hoje, qualquer grande show, peça ou evento cultural realizado na cidade, com raríssimas exceções, é produzido por uma mesma empresa. Os ingressos são sempre caríssimos, mesmo que as atrações sejam trazidas para cá graças à Lei de Incentivo à Cultura. Para resumir e deixar claro para todos, nós pagamos impostos, que são distribuídos por áreas do governo e uma parte vai inclusive para a cultura. Esse percentual serve, entre outras coisas, para financiar peças e shows, que chegam a Porto Alegre com valores mínimos de R$ 80,00 por pessoa e casa cheia.

O que intriga também é que os espaços da cultura em Porto Alegre foram diminuindo gradativamente. Um dos poucos lugares que abrigam manifestações gratuitas, portanto abertas ao público, é o recém inaugurado Espaço Vonpar, do Multipalco do Teatro São Pedro, que chega a ter dois shows na mesma noite, tamanha é a procura e a escassez de espaços.  O auditório Araujo Viana, um símbolo da cidade, está fechado, abandonado e em ruínas há cinco anos. A solução encontrada pela Prefeitura foi a privatização. A empresa vencedora da licitação foi a única inscrita: a Opus Promoções, a mesma que monopoliza as peças e shows realizados na cidade. Detalhe é que isso já faz dois anos e até agora nenhum prego foi colocado ali. A Prefeitura e a imprensa fazem de conta que não estão vendo. Nada de cobranças, afinal vivemos tempos de pacificação política, sem aquela raiva e aquela veemência de tratar tudo como se fosse uma disputa Gre-Nal...

Mas eu quero dividir com o amigo leitor o seguinte raciocínio: qual o interesse da Opus em reformar o espaço público da cultura de Porto Alegre se estão lucrando milhares e milhares de reais em cada show ou peça trazida a Porto Alegre? Nenhum. O compromisso da Opus não é com a cultura ou com o interesse público, mas sim com o lucro. É muito mais interessante para essa empresa lotar o Teatro do Bourbon Country com ingressos na média de R$ 150,00 do que lotar o auditório público (será que ainda pode ser chamado assim?) no meio do Parque da Redenção.

Só que precisamos ir um pouquinho além. A Opus só se tornou a dona da cultura porto-alegrense porque o poder público assim permitiu. Gostaria de saber qual a explicação que a dupla Sergius Gonzaga e Ana Fagundes, gestores da cultura de Porto Alegre, têm a dar sobre isso. Mas gostaria que eles o fizessem enquanto Secretaria Municipal de Cultura, não enquanto Opus Promoções. Não sei se é possível fazer essa divisão, mas seria adequado separar o público do privado pelo menos no momento de explicar porque a cultura pública de Porto Alegre está morrendo.

Cultura não é um bem só dos ricos, é de todos!

Falei!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Tamo junto Dunga!


Quando o Dunga foi escolhido técnico da Seleção, logo após aquele fiasco de 2006, tive todas as dúvidas se daria certo. Mas como torcer pela Seleção não é, ou pelo menos não deveria ser, uma questão ideológica, mas sim de patriotismo, continuei torcendo pelo Brasil e, logo, pelo Dunga.  Não adianta, independente de quem for o técnico, vamos torcer pela Seleção. Essa é uma regra no país do futebol.

Só que o Dunga foi mudando a minha opinião, subindo no meu conceito. Pela primeira vez na história desse país a roupa de um técnico da Seleção virou tema de debate nacional... e ele foi segurando no peito a pressão desse emprego com 190 milhões de chefes, muitos implacáveis na rigidez. E a resposta deles veio com vitórias. Pronto! Me ganhou.

Chega a tal convocação para a Copa, aparecem milhares de suposições e o técnico faz seu anúncio. Foi dada a largada para o festival de palpites, acusações e ofensas. Os jornalistas esportivos chegam ao cúmulo de transformar uma entrevista coletiva em sabatina, tentando apertar o técnico para saber por que não convocou esse ou aquele que eles preferiam.  Só faltou fazer o que fizeram com o Felipão, que quase foi agredido na rua porque não convocou o Romário, lembram? 

Ele respondeu com um título. É claro que não depende só do técnico, mas nesse emprego meu amigo, ninguém pensa em errar. Quem quer que seja, eu vou torcer junto, tentar entender as escolhas e apoiar. Se é um cara de personalidade e coragem que nem o Dunga, e era o caso do Felipão também, acho que essa pressão só faz aumentar a empolgação e vontade de acertar.

Juro que não é bairrismo, mas estou confiante. Pelo Dunga. Pelo título. Pela Seleção.

Falei!

domingo, 9 de maio de 2010

Homenagem à minha mãe


Sou um aficionado por seriados. Gosto muito mesmo e se não me cuidar fico o dia todo trancado em casa assistindo episódios em sequência. Um dos meus favoritos é o Brothers and Sisters, que relata a história de uma família de cinco filhos, cada um de um jeito, cada um com sua história. O principal elo que os une e lidera o clã Walker é a figura da mãe, Nora, brilhantemente interpretada por Sally Fields. É essa viúva de aparência meio frágil mas de personalidade absolutamente forte quem administra e mantém viva a chama de família.

Na verdade, a personagem de Nora Walker só retrata a figura mais sensacional que existe no mundo que é a mãe. Trata-se de pessoa que gera a vida, que tem a divina missão de ceder o seu corpo para o desenvolvimento dos filhos e depois, na maioria das vezes, dar a vida por esses. Conheço grandes exemplos de mães na vida real, mas quero pedir licença para homenagear a minha.

Desde muito cedo – desde sempre, eu diria – coube à minha mãe a responsabilidade de administrar sozinha uma família. Durante sete anos fomos somente eu e ela. Depois veio a Duda. É claro que durante alguns anos, ela foi casada, mas mesmo quando tinha o marido em casa, ela sempre foi a chefe de família. Por isso mesmo sempre trabalhou muito, às vezes em dois, três empregos. Isso fazia com que ela ficasse muitas horas fora de casa. No entanto, jamais vou esquecer do barulho do seu salto chegando em casa. Eu reconhecia de longe que era ela e é impressionante o quanto isso me trazia segurança. Ela podia estar cansada, mal humorada ou simplesmente sem querer muito assunto, mas o fato de ter ela por perto era muito confortante.

Não há um momento exato na vida que eu possa descrever como o mais marcante da minha relação com a minha mãe, mas com certeza sei o mais difícil, que foi quando senti que havia possibilidade real de perdê-la. Foi um episódio muito difícil, em que pela primeira vez vi aquela fortaleza fragilizada. Tive que ser chamado à responsabilidade de liderar interinamente a família, em outra cidade, com uma irmã adolescente e minha mãe com câncer. Felizmente vencemos aquela etapa que com certeza nos deu um outro sentido para a palavra família.

Mas é assim, de momentos bons e ruins que se constituem as histórias de vida. Eu tenho orgulho da minha, em especial por ter sido liderada por uma mulher tão forte e determinada quanto a minha mãe. Ela é a protagonista da nossa história, elo que nos une e sem o qual nada seria possível.

Que bom ter uma mãe! Que bom ter a minha mãe!

Falei!
 

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Bora Fabito

No Rio Grande do Sul temos uma característica muito marcante que é a rivalidade. É algo que mora dentro da gente e se manifesta em várias situações: nos churrascos de fim de semana, na discussão entre os que preferem o verão ao inverno e vice-versa, entre maragatos e chimangos, na política e, muito especialmente, no futebol. Ou tu é colorado, ou gremista. Não tem meio termo – no máximo uma concessão para um time do interior. E todo bom colorado é anti-gremista. Todo bom gremista é anti-colorado. É assim e ponto.

Foi nesse clima de rivalidade que conheci o Fábio em Brasília. Fomos apresentados por um amigo em comum, o Rafão. Tínhamos muito em comum: ambos estudantes de jornalismo do IESB, gaúchos aquerenciados em Brasília e apaixonados por esporte. Mas essas várias semelhanças foram todas superadas justamente pela maior diferença: eu sou colorado e o Fábio gremista. E foi justamente essa diferença que nos aproximou. Se o Inter perdia no domingo, eu tentava não encontrar o Fábio pelo corredor pra não ouvir aquela flauta. Quando o Grêmio perdia eu nem o via por lá. Nunca fomos grandes amigos, mas essa rivalidade esportiva nos aproximou . Além da flauta e das brincadeiras sobre time, sempre batemos bons papos, sobre futebol ou qualquer outro assunto.

Mas a vida prega peças na gente que pegam todo mundo de surpresa. Acontecimentos que nos fazem questionar tudo e todos. Alguns desistem, se entregam. Outros se fortalecem.

Em 2006, numa festa na casa de um amigo, o Fábio caiu na piscina de mau jeito e ficou tetraplégico. Um episódio absolutamente banal mudou a vida de uma pessoa. Podia ter acontecido comigo, com qualquer um, mas aconteceu com o Fábio Grando. Ele não desistiu. Ao contrário, continuou estudando, formou-se jornalista e continuou torcendo para o seu tricolor. Agora a luta do Fábio é para viajar aos Estados Unidos para fazer um tratamento de fisioterapia que pode ajudá-lo a recuperar alguns movimentos. Só que não é uma luta nada barata.

É por isso que o Fábio e seus incansáveis amigos estão com a campanha BORA FABITO, que trabalha na arrecadação de fundos para custear a viagem e o tratamento dele. Cada um ajuda como pode, doando, divulgando ou inventando moda. Todo mundo que assiste a novela das oito e se sensibiliza com a história da Luciana, pode trazer a emoção da ficção e ajudar alguém da vida real.

Vamos arregaçar as mangas e ajudar esse tricolor com uma força de vontade verdadeiramente imortal.

Depósitos:
Banco do Brasil
Ag: 3596-3 C/C: 9411-0
Titular: Fábio Grando
CPF: 952.076.781-91

Quer conhecer mais sobre a história do Fábio e outras formas de ajudar:

Falei!

domingo, 11 de abril de 2010

O negócio é constranger


Não existe coisa que me irrita mais do que o desleixo dos seres humanos com a coletividade. Um exemplo disso são as pessoas muito mal educadas que jogam lixo no chão. É algo que realmente me tira do sério.

Jogar pequenas coisas no chão é tão habitual para algumas pessoas que elas fazem isso com a maior naturalidade, sem nenhuma vergonha, movidas por aquele pensamento “que é só um papelzinho, não vai fazer diferença...” Vai sim! Pois o seu pequeno papel se junta a outros milhares – talvez milhões – de pedacinhos que sozinhos são inofensivos, mas que juntos são uma desgraça. Me refiro ao papel de bala, à garrafinha de água, à latinha, ao pedaço de papel, à bituca de cigarro...

Eu fico pensando se quando assistem pela televisão tragédias cotidianas, como o que está acontecendo agora no Rio de Janeiro, as pessoas não se sentem culpadas. Alô galera! A natureza está mandando recados. Ou mudamos os nossos hábitos, ou fim da linha para nós. Sim, o que acontece no Rio agora e que pode muito bem acontecer em qualquer cidade é responsabilidade de quem vai morar em encostas, em morros, de quem joga lixo no chão que entope esgotos, de quem não tem consciência. Colocar a culpa nos governos é muito fácil, sobretudo porque tira das nossas costas a responsabilidade. Os administradores realmente têm sua parcela de culpa, mas não existe milagre. Se o povo não se conscientizar, não haverá solução.

Para as pessoas que jogam lixo no chão, tenho uma receita: o constrangimento. Fiz e deu certo. Essa semana eu estava atravessando a Osvaldo Aranha, uma movimentada avenida de Porto Alegre. Quando eu passava pela parada de ônibus, que por sinal estava lotada, uma senhora de 40 e poucos anos terminou de comer seu salgadinho da Elma Chips e largou o saco no chão. Parei de caminhar e esperei para ver se ela iria juntar. Não juntou. Vi que outras pessoas também ficaram olhando, mas ninguém fez nada. Continuei caminhando, mas não resisti. Voltei, juntei o papel e alcancei para ela:

- Desculpe, mas acho que a senhora deixou isso cair aqui no chão.

- Era só o que me faltava!

- Desculpe?

- Não é da tua conta o que eu faço com o lixo. Aqui não tem lixeira.

- A senhora vai me desculpar, mas tem uma lixeira bem ali e isso é da minha conta sim. Na verdade isso é da conta de todo mundo, pois esse lixo entope bueiros e acaba causando transtornos pra todo mundo. E se não tivesse lixeira, que guardasse na bolsa e levasse pra casa.

- Mas quem tu pensa que é guri pra me dizer o que eu tenho que fazer com o lixo? Uma mulher da minha idade...

- Uma mulher da sua idade dando exemplo de relaxamento!

Nesse momento ela começou a buscar apoio das pessoas que estavam esperando o ônibus mas ninguém a acolheu. Percebi que todos estavam olhando para ela com reprovação. Nesse momento ficou claro o constrangimento dela, daqueles que deixa a pessoa sem graça, com vontade de cavar um buraco no chão e se enterrar. Ela arrancou o saco da minha mão e foi até a lixeira.

Eu saí dali convencido que essa atitude é eficaz. Pode não dar certo sempre, mas tenho certeza que essa senhora lembrará do guri chato e metido toda vez que pensar em jogar um papel no chão. Acho que é isso, depende de quem tem o mínimo de consciência fazer alguma coisa, antes que seja tarde demais. Os recados estão aí, cada vez mais frequentes e graves. Se cada um fizer a sua parte, vai dar tudo certo.

Falei!